terça-feira, 14 de novembro de 2017

Plumas: Resistência após Incêndio

As plumas (Cortaderia selloana) exótica invasora, estão a invadir em força o grande Porto. Por exemplo, Gaia está completamente invadido por esta erva vulgarmente conhecida por penachos, plumas, erva-das-pampas, originária da Argentina e Chile. 


Trata-se de uma erva que pode atingir os dois metros e meio, que corta facilmente a pele se lhe passarmos as mãos e é muito facilmente identificável quando exibe as suas plumas. É uma planta que podemos encontrar em diferentes habitats, diferentes tipos de solos, como junto ao rio, nas bermas das estradas, ou em terrenos baldios. 





Só pela observação que fui fazendo, rapidamente cheguei à conclusão que não é uma planta de ser facilmente erradicada. Vejo constantemente pessoas as cortá-las com roçadoras, bem rente ao solo, para depois, passado pouco tempo, elas regressarem com grande vigor. Tal como também já tinha visto incendiarem as zonas onde elas estão e também me pareceu que esse esforço era infrutífero. 

E agora pude facilmente comprová-lo. Os últimos grandes incêndios de 14 e 15 de Outubro, que infelizmente provocaram mais uma série de vítimas, foram há um mês. E um mês depois já podemos observar esta invasora a ressurgir, qual fénix, das cinzas:






domingo, 12 de novembro de 2017

Por Que é Que as Casas Ardem em Portugal? (3)

Dizem-me que algo vai mudar no que aos incêndios diz respeito. Dizem-me que, depois de cem mortes, algo tem de mudar. Eu digo que não. Já conheço muito bem os portugueses. E nada mudará. Tudo continuará na mesma. As casas vão continuar a arder porque a lei não se cumpre e ninguém a faz cumprir. Os eucaliptos e pinheiros quase entram casas adentro. Não é preciso procurar muito. Basta estar atento e olhar em volta. Hoje parei o carro e fotografei mais estes dois exemplos. Ninguém limpa, ninguém corta as árvores, ninguém cumpre a lei, ninguém exige que ela se cumpra. E depois vêm todos fazer o choradinho do costume, com lágrimas de crocodilo e campanhas de solidariedade. 



Eucaliptização: As Consequências

"A eucaliptização é pois um verdadeiro atentado à identidade portuguesa."


Sobre a Água

Em áreas de precipitação elevada (acima dos 1000 mm) o seu consumo de água, embora muito acentuado, não reduz criticamente a disponibilidade hídrica das bacias, mas em áreas de menor precipitação, onde têm sido instalados grande parte dos eucaliptais nos últimos anos, o efeitos dos eucaliptais industriais adultos de alta intensidade sobre os recursos hídricos é acentuado, tornando-se praticamente nulo o rendimento em água das bacias hidrográficas onde está instalado. Este efeito  começa a verificar-se já quando as árvores têm 4-6 anos de idade. 

Nas zonas de baixa precipitação o eucalipto desenvolve um vasto sistema radicular superficial que absorve em grande parte a água da infiltração, bloqueando a recarga subterrânea e eliminando drasticamente a vegetação do sub-bosque. O sistema radicular também lhe permite explorar eficientemente aquíferos subterrâneos. 

Sobre o  Solo

Dada a elevada produtividade dos eucaliptais, para além da excessiva exploração da água, grande quantidade de nutrientes encontram-se imobilizados na biomassa (raízes, casca, ramos e folhas). O folhado de elevado pH é rapidamente mineralizado sem incorporação de matéria orgânica nos horizontes do solo, e os elementos libertados são novamente absorvidos pela planta, continuando os horizontes minerais pobres em matéria orgânica, em nutrientes e de pH baixo. 

Em especial em regiões de baixa precipitação e com solos de baixa fertilidade, a quase inexistência de vegetação herbácea e arbustiva não permite proteger o solo da erosão hídrica, pelo que os eucaliptais são ineficientes para conterem a erosão laminar, mesmo quando plenamente desenvolvidos.  

Após o fim do ciclo de produção resta o terreno coberto de cepos e raízes de difícil remoção. Se não forem retirados, deixarão os terrenos improdutivos e inutilizáveis para reconversão, em parte devido ao desenvolvimento de fungos. (...) Por outro lado, a cuidada remoção dos cepos e raízes em solos compactos será particularmente difícil e onerosa economicamente inviável, contribuindo assim também para a forte erosão em declives acentuados. 

Sobre a Flora e Fauna

A sua instalação e corte pressupõem a destruição das comunidades pré-existentes ou entretanto desenvolvidas durante o crescimento do povoamento. 

Estes aspetos são significativamente agravados no caso dos eucaliptais das zonas de fraca precipitação, onde o desenvolvimento do sub-bosque é quase nulo. Verifica-se assim uma redução drástica da riqueza florística. A flora mediterrânica contém numerosos endemismos muito localizados. A plantação indiscriminada de extensas áreas de eucaliptais   pode implicar assim a extinção completa de diversas espécies. 

É igualmente grave o desaparecimento sistemático de várias espéceis arbóreas e subarbóreas caraterísticas da nossa flora (carvalhos, medronheiros zambujeiros, etc) são frequentemente cortadas ou "abafadas" pelos novos eucaliptos. Com elas desaparecem as espécies epifíticas (musgos e líquenes) respetivas, muitas com valor económico. 

A substituição sistemática das fitocenoses naturais, que constituem valiosos habitats para a fauna, por eucaliptais exóticos, extremamente pobres em nichos ecológicos e de escassos recursos alimentares, constitui uma das mais importantes causas de perda de abundância e diversidade faunística. De facto os eucaliptais são muito mais pobres em fauna que, por exemplo, um montado de sobro. 

Incidindo sobretudo sobre áreas de agricultura marginal ou extensiva, e sobre os habitats naturais e semi-naturais ("incultos") a eucaliptização é a principal ameaça atual para diversas espécies em perigo - lince, gato-bravo, aves de rapina, cegonha negra, abetarda, etc. 


Sobre a Economia

Apesar de ser habitual afirmar-se que o eucalipto é a espécie silvícola que maiores rendimentos proporciona, esta afirmação é falsa. Na verdade, o montado de sobro em uso múltiplo, quando convenientemente explorado, proporciona rendimentos muito superiores, sem que apresente os impactes ambientais negativos do eucaliptal, os quais aliás não são contabilizados pelos que falam dos elevados rendimento do eucalipto. 

Assim, o eucalipto apenas permite atingir rendimentos mais rápidos, por ser uma espécie de crescimento rápido mas não é de forma alguma a espécie mais rendível, nem a que garante uma rendibilidade sustentada. 

As empresas de celulose, que se têm apresentado como fonte de lucro para o país, possuem na maior parte dos casos uma forte componente de capital estrangeiro, que é mesmo maioritário nalguns casos, o que implica que, na realidade grande parte dos lucros gerados são exportados para outros países, os quais deles usufruem sem suportar os impactos da eucaliptização e da atividade industrial que lhe está associada. 

Numa verdadeira avaliação dos aspetos económicos da eucaliptização, há ainda que ter em conta que, em geral, ao fim de três cortes torna-se economicamente inviável nova plantação de eucaliptos. Os custos e consequência da remoção dos cepos e raízes são gravosos e ainda não completamente avaliados, pelo que implicam severa quebra na capacidade produtiva dos solos, riscos de erosão, etc. 

Só uma visão economicista estrita baseada exclusivamente no lucro imediato, pode explicar a opção económica pela monocultura intensiva do eucalipto, como a têm defendido alguns governantes. Esquecer deliberadamente as gravosas consequências que a mesma implica, embarcando em metáforas falaciosas como a do "petróleo verde", é tão lesivo da Pátria como o seria vender porções do território nacional. A eucaliptização desenfreada a que se assiste em Portugal só tem de semelhante ao petróleo o efeito de uma maré negra, alastrando sem parar na nossa floresta, e constitui uma ameaça preocupante ao desenvolvimento sócio-económico do país. 

Sobre as Regiões

Em primeiro lugar, o eucalipto constitui um elemento exótico, alheio à nossa região biogeográfica, não integrado culturalmente no sistema de sobrevivência das comunidades rurais, exceto como elemento de referência topográfica, ou outras utilizações secundárias. 

O proprietário que vende a terra às celuloses, aliciado pelos preços sobrestimados que esta não pode praticar, contraria a sua posição de residente: não deseja vender, mas não tem alternativa, o que lhe cria um conflito psicológico consigo próprio e com a sociedade de que faz parte. Ao perder a posse efetiva e o controle sobre a propriedade, perde o seu estatuto socio-económico habitual, desinserindo-se da comunidade. A função social do proprietário que a aliena a terra ou o seu uso em benefício das celuloses torna-se abstrata. 

Sobre a Cultura


A forma como são plantados os eucaliptos, implicando a mobilização dos terrenos e a utilização de maquinaria pesada, tem levado à destruição e muitos vestígios arqueológicos, em especial de monumentos megalíticos. Para esta situação muito contribui a falta de preparação e de sensibilidade dos responsáveis pela arborizações industriais. Embora também falte um inventário nacional exaustivo das áreas de interesse arqueológico, já tem ocorrido a destruição por parte da empresas de estações arqueológicas referenciadas. O que atesta a sua manifesta falta de respeito pelos valores culturais e históricos do nosso país. 

Por outro lado, a paisagem faz parte integrante da identidade cultural de um país e de um povo. O impacto paisagístico de monoculturas de uma espécie oriunda de outra região geográfica, descaracterizam em absoluto a paisagem portuguesa. A paisagem variada tradicional, aliás um dos sustentáculos do turismo, tem sido crescentemente substituída por manchas contínuas e monótonas eu eucaliptos, como sucede já em amplas extensões do país. 

Excertos de "A eucaliptização em Portugal: Análise da situação e propostas de resolução" / Agrobio - APB - GEOTA - GUEA - LPN - QUERCUS de 1989

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Porque Ardem Empresas em Portugal?

Podem mudar governos, podem aumentar o número de bombeiros, podem contratar milhares de helicópteros e milhares de aviões. Podem fazer o que quiserem, mas se não limparem à volta das das casas e das empresas, tudo continuará na mesma. É essa a minha convicção. Arderam centenas de casas este ano, arderam também muitas empresas. E continuarão a arder se a lei, que existe há muitos anos, não for cumprida e não a fizerem cumprir. 

Não é preciso procurar muito para perceber o porquê de arderem empresas em Portugal nos incêndios. Na própria rua onde trabalho podemos encontrar casos gritantes. Não se limpa, não se obriga a limpar. E tem-se um belo eucaliptal a três ou quatro metros das paredes da empresa. E um dia a empresa arderá. E todos pagaremos pela preguiça dos outros. E tudo continuará na mesma, ano após ano.




Segundo o estipulado no n.º 2 do artigo 15.º do Decreto-Lei n.º 124/2006, de 28 de junho alterado pelo Decreto-Lei n.º 17/2009, de 14 de janeiro, as e os proprietários, arrendatários, usufrutuários ou entidades que, a qualquer título, detenham terrenos confinantes a edificações, designadamente habitações, estaleiros, armazéns, oficinas, fábricas ou outros equipamentos, são obrigados(as) a proceder à gestão de combustível numa faixa de 50 metros à volta daquelas edificações ou instalações medida a partir da alvenaria exterior da edificação, de acordo com as normas constantes no anexo do referido Decreto-lei.

terça-feira, 7 de novembro de 2017

PR5 Rota dos Espigueiros

Foi no fim-de-semana passado, num belo dia de outono, com tempo cinzento e alguns chuviscos pela manhã que até me obrigaram a retirar o impermeável do saco, que me juntei ao grupo do costume para fazer o percurso PR5 Rota dos Espigueiros, por terras de Bastelo e Várzea Cova no concelho de Fafe. 

Iniciamos a caminhada junto à igreja de Várzea Cova, uma freguesia que, segundo a Wikipedia, tem 358 habitantes, e que por aqui já se pode ver como estamos num ambiente rural e com pouca presença e intervenção do Homem. 




O percurso chama-se Rota dos Espigueiros (ou canastros como sempre ouvi dizer por aqui onde vivo) porque ao longo do percurso podemos observar várias destas construções, usadas pelas pessoas para guardar o milho a salvo dos roedores. 





Não fiz muitas caminhadas durante este ano, mas esta terá sido, muito provavelmente, a que mais gostei. Durante o percurso de 12Km, podemos observar um meio rural, com uvas nas videiras, com uma paisagem de flora autóctone, apesar do invasor eucalipto já se avistar perigosamente à distância. E podemos mesmo deliciar-nos ao passar por um bosque de carvalhos, salpicados de musgo verde, apanhar algumas castanhas caídas no chão, e vamos ainda cruzar-nos com diversos cursos de água. Pude ainda observar, em sítios diferentes, duas salamandras, infelizmente mortas na estrada, mas isto significará que esta será uma zona onde ainda se encontrarão com facilidade. Outra coisa muito triste de se ver, é ainda se encontrarem cães, sozinhos, amarrados a cadeado, muitas vezes a bidões de chapa. Já não estamos nesse tempo, e talvez seja da competência das juntas de freguesia alertar as pessoas para o erro que estão a incorrer.  

Como o dia estava de chuva, deixei a máquina reflex em casa e levei comigo a pequena compacta. As fotografias não fazem jus à beleza que encontrei, mas dá para ter uma ideia. E para ver, sentir e cheirar, só indo mesmo lá...