segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Parque de Serralves

O Parque de Serralves, pela sua extensa área, pelo porte e diversidade das suas árvores, pelos seus  diferentes espaços ajardinados, e até pela integração de obras de arte contemporânea, é, sem dúvida, um dos espaços românticos e onde se pode estar em contacto com a Natureza, de visita obrigatória a quem visita a cidade do Porto.

Ironicamente são raras as minhas visitas ao Parque de Serralves. Mas não é porque não goste do espaço, muito pelo contrário, mas porque me desagrada a forma capitalista como a organização barra o seu acesso, de um espaço que é financiado por todo nós, com muitos milhões vindos do erário público, dinheiro dos nossos impostos, e que no fim de contas acaba por parecer que só serve para financiar um parque mas só para estrangeiro endinheirado ver.

A Casa de Serralves

"Pensava que os exércitos de operárias e operários pobres e explorados que contribuíram para a acumulação primitiva do capital industrial têxtil que pagou a folia e o requinte de Serralves estavam finalmente justiçados com a abertura do jardim e do museu à res publica. Engano. O Estado e os tios e tias dos fundadores da fundação mais as suas empresas e piedosas obras de mecenato e outras manobras de distinção e tudo que lhes dá um verniz de arte contemporânea e de empenhamento social decidiram apoiar esta decisão inteligente e oportuna num tempo em que a entrada grátis ao domingo de manhã era mais que justificável. Se a fundação não tem guito, que mude a programação e, em vez da arte pop, do minimalismo, do pós-minimalismo, da arte conceptual e da arte povera, que invista mesmo na arte pobre para os pobres. Ficávamos mais contentes, permanecia o amor ao museu e seguiríamos mais conciliados com uma verdadeira arte capaz de iluminar a nossa condição contemporânea de estarmos por conta de um punhado de ricos escandalosamente ricos a reinar num planeta de pobres desgraçados aos milhões." ("Serralves para que te quero" / Álvaro Domingues / Público)

Antigamente ainda se podia entrar gratuitamente aos domingos, mas agora nem isso (é só no primeiro domingo e entre as 10 e as 13h). Só para visitar o parque cobram-se 5€, quando ainda não há muito tempo me lembro de pagar metade desse valor. Para visitar o Parque+Museu já são 10€. E assim sendo comecei a esquecer-me que a Fundação Serralves existe, pois felizmente que a cidade do Porto, tem muitos outros parques e jardins, e todos eles são gratuitos.

Mas se tenho vindo aos poucos, a ilustrar aqui no Bucólico todos os espaços ajardinados, mais ou menos históricos da cidade do Porto, seria uma grande falha não me demorar a ilustrar, para quem não conhece, o que Serralves tem para mostrar, e que, diga-se, é muito. Então, sabendo já de antemão, que no dia 9 de Julho, que era um sábado com entrada gratuita (cortesia da empresa portuguesa Oliveira da Serra) aproveitei para, de uma só vez, de manhã bem cedo, fotografar os metrosideros da Foz e dar uma saltada a Serralves para recolher mais algumas fotografias.
E pouco depois das 10h, hora a que abre o espaço lá estava eu.

Para quem não conhece e para situar, Serralves fica mais ou menos a meio da Avenida da Boavista, entre o mar e a Rotunda da Boavista, muito perto do já aqui abordado Parque da Pasteleira, e também não muito longe do Jardim Botânico do Porto.



O Parque de Serralves, abriu ao público em 1987 e é um grande espaço (com 18 hectares), onde podemos passear e fazer diferentes caminhos, por diferentes áreas, harmoniosamente integradas e onde se podem ver árvores imponentes, jardins formais, um prado, um jardim de aromáticas, um lago e até uma quinta tradicional com uma horta pedagógica. Pontualmente, vamos também encontrando algumas obras de arte contemporânea integradas nos diferentes espaços.

O Parque foi projetado por Jacques Gréber na década de trinta do século passado, depois do 2º Conde de Vizela ter herdado a Quinta do Lordelo. O Parque de Serralves é considerado uma referência no património da paisagem em Portugal e nele podemos encontrar cerca de duzentas espécies e variedades de plantas entre autóctones e exóticas.

No folheto do espaço podemos ver no mapa que obras são essa que encontraremos ao longo do percurso que decidirmos fazer.


De folheto na mão, vamos então fazer uma visita por todos os pontos principais.
Logo à entrada, depois de passar na bilheteira e entregar o bilhete ao segurança, deparamo-nos desde logo com um grande espaço relvado onde está situada a Clareira das Bétulas.


E logo mais à frente vamos dar de caras com a gigante Colher de Jardineiro.
(Plantoir / Claes Oldenburg e Coosje Bruggen /2001)




Avenida dos Liquidambares

A Alameda estrutura um dos eixos a partir de cuja geometria se organizam todos os espaços inscritos pelo projecto de 1932, de Jacques Gréber,
na paisagem de Serralves, apresentando-se actualmente como um dos elementos mais significativos do Parque.

No Outono, a sombra é tingida de intensos vermelhos pelo cromatismo alterado das folhas dos Liquidambares.

Passada a penumbra ritmada pelas duas duplas fileiras de troncos, é novamente a luz que conduz e anuncia a chegada ao Grand Terrace fronteiro à Casa, e desvenda à direita o Parterre Central.

Avenida dos Liquidambares na Primavera

Avenida dos Liquidambares no Outono

Bosque das Faias
Atravessado por percursos de suave ondulação que contrastam com a dominante ortagonalidade dos percursos que desde a Casa atravessam e organizam os parterres e outros espaços do Parque, o Bosque é em grande parte constituído por um conjunto arbóreo dominado por Faias e Carvalhos Americanos, contendo algumas das árvores mais significativas do Parque, das quais se destacam a Faia Vermelha, a Faia de Folha Recortada e um conjunto de Camélias pertencente ao jardim de uma das propriedades adquiridas pelo Conde de Vizela, e anteriores ao projecto de 1932, de Jacques Gréber, para o Jardim de Serralves.



Esta dominância de duas espécies caducifólias contribui para a sua acentuada variabilidade sazonal, alternando entre a folhosa densidade trespassada por uma luz filtrada na Primavera e no Verão, período este em que se torna um dos mais frescos e agradáveis espaços do Parque, a grande variedade cromática das folhas no Outono, e a sua quase total nudez no Inverno que põe em evidência a magnífica arquitectura das árvores.







Paterre Lateral
Paralelo à Alameda dos Liquidambares, um dos eixos principais da propriedade, e no prolongamento visual de uma das áreas sociais mais importantes da Casa, o Parterre Lateral configura-se como uma sala ao ar livre, provavelmente destinada a uma fruição de cariz mais intimista, e pano de fundo da sala de estar.

Envolvido por elementos arbóreos de porte significativo do Bosque e da Alameda, o parterre é espacialmente definido pela sebe de teixo que determina rigorosamente os seus limites, e pelos planos relvados dos tapis verts que originalmente albergavam plantações herbáceas e arbustivas de relativa complexidade e cariz fortemente ornamental, ao gosto da época, pontuadas por ciprestes.

A aparente imutabilidade da sebe e dos planos relvados contrasta, hoje, com a intensa variabilidade das folhagens e florações que, ao longo do ano, caracterizam as copas das árvores e arbustos que os ensombram.


A Casa de Serralves
Visitar a Casa de Serralves é fazer uma viagem no tempo: este exemplar único da arquitetura Art Déco remonta aos anos 30 do século XX. Com grande rigor decorativo e qualidade de materiais, a Casa teve a intervenção de nomes significativos da época como Marques da Silva, Charles Siclis, Jacques Émile Ruhlmann, René Lalique e Edgar Brandt.







Paterre Central
O Parterre Central desenvolve-se em patamares descendentes que partem do Grand Terrace, charneira entre a implantação da Casa e a Alameda dos Liquidambares.

Patamar aberto ao Douro, a Sul, o parterre constrói-se enquanto espaço estrutural e estruturante. A sua geometria ordena os espaços inscritos em Serralves pelo projecto de Jacques Gréber, tendo na água o tema principal e elemento central, caracterizando-o enquanto Parterre d’eau que formalmente se estende ao longo do eixo de 500 metros que termina no extremo Sul da propriedade.

A importância intrínseca dos Jogos de Água – tanques, canaletes e tanque com face gomada, bem como o desaparecido Tanque Grande no final do eixo – é determinante na qualidade do espaço, sendo os azulejos que os revestem caracterizadores dos planos de água, permitindo a sua percepção volumétrica e atribuindo-lhe cor.

Bordaduras mistas de herbáceas e arbustos de grande informalidade definem lateralmente este espaço, contrapondo-se à rigorosa ortagonalidade do desenho dos Jogos de Água.

Nos planos laterais superiores, duas Alamedas de Castanheiros-da-Índia, mimetizam pré-existências do jardim da família do Conde de Vizela.









Jardim das Camélias
Anterior ao projecto para a Casa e Jardim de Serralves, este jardim, que hoje se desenvolve a Nascente da Capela, era parte integrante da propriedade da família do Conde de Vizela.

Da sua estrutura original permanece um reservatório de água para irrigação e um notável conjunto de Camélias centenárias, apenas comparáveis às existentes no Bosque, e que juntamente com a Araucária de Norfolk localizada no centro desse conjunto, seriam integradas no projecto de 1932 para o jardim.

A floração destes elementos arbóreos, hoje dos mais antigos e significativos presentes em Serralves, adiciona uma inesperada palete de cores e diversidade à paisagem invernal do Parque.



Lago
Anterior ao projecto da Casa e do Jardim de Serralves, o Lago fazia já parte do jardim existente na propriedade da família do Conde de Vizela, tendo sido mantido e integrado de forma notável.

Ao gosto da época, final do Séc. XIX – início do Séc.XX, tinha um forte pendor pitoresco, de cariz exótico, carácter que ainda hoje transparece. Com o projecto de 1932 foi retirada a ponte que dava acesso à ilha, e substituída por um barco para o qual foi desenhado o embarcadouro no grotto construído sob as escadas nessa altura edificadas mas mantido o Banco Romântico, localizado na sua margem Sul, sob a sombra de um Ulmeiro do Japão.

A encosta rochosa e a cascata, ambas artificiais, são também resultado desta intervenção, possivelmente executadas sobre estruturas já existentes, e demonstram assinalável mestria na sua composição. Enquanto elemento exótico e aparentemente dissonante do restante projecto, o Lago integra-se, no entanto, de forma coerente no todo.










O Roseiral
Projectado em 1932 como Jardim Potager – Jardim Hortícola ou, mais vulgarmente, Horta – junto àquele que era, à época, o limite Poente da Propriedade, o Roseiral é um dos lugares significativos do Parque, caracterizado pelo desenho de rigorosa geometria dos canteiros de Buxo que acolhem a colecção de rosas, no patamar inferior, e a pérgola de roseiras de trepar, no patamar superior, num traçado clássico suavemente modernizado.

Originalmente encerrado a Sul e a Poente por anteparos que suportavam plantas trepadeiras, o Roseiral constituía-se enquanto sala ao ar livre, carácter que ainda hoje perdura, envolta em paredes verdes hoje substituídas por sebes. A pequena fonte circular localizada sensivelmente no seu centro, era originalmente parte do jardim existente na propriedade da família de Carlos Alberto Cabral. No seu limite Nascente encontra-se um monumental Castanheiro que é actualmente uma das árvores mais significativas do Parque.









Lugar da Oliveira
Nascida no coração do Alentejo, esta oliveira com quase 1500 anos de existência faz parte da história de Portugal. Uma oliveira que resistiu, nas últimas décadas, ao progressivo abandono e desinvestimento no olival português.

Ícone importante do olival e da sua sustentabilidade, esta oliveira, com um perímetro médio ao nível do peito de 4,86 metros, um perímetro médio de base de 6,82 metros e uma altura de tronco de 2,10 metros, foi simbolicamente oferecida pela Oliveira da Serra à Fundação de Serralves, para celebrar o compromisso de ambos pela sustentabilidade ambiental e criar um novo espaço no Parque de Serralves para receber iniciativas didácticas relacionadas com o ambiente e o olival.

Junto à escadaria de acesso ao Jardim do Museu, encontra-se uma oliveira com quase 1500 anos de existência e que faz parte da história de Portugal. Esta oliveira, com um perímetro médio ao nível do peito de 4,86 metros, um perímetro médio de base de 6,82 metros e uma altura de tronco de 2,10 metros, foi simbolicamente oferecida pela Oliveira da Serra à Fundação de Serralves, para celebrar o compromisso de ambos pela sustentabilidade ambiental e criar um novo espaço no Parque de Serralves para receber iniciativas didácticas relacionadas com o ambiente e o olival.




    




 Jardim do Museu
Explorando igualmente as formas de leitura de edifício e vegetação ao longo das variações, diárias e sazonais, da luz solar, a paisagem do Museu de Arte Contemporânea constrói-se a partir das associações vegetais espontâneas do Norte de Portugal, por oposição à vegetação exótica e ornamental do Parque.





O Arboreto
Como a sua toponímia faz antever, o Arboreto - espaço de paisagem dedicado à colecção de espécies arbóreas - alberga algumas das mais antigas e, simultaneamente, algumas das mais significativas árvores do Parque, das quais se destacam a Sequóia Gigante da Califórnia, a Araucária de Norfolk, os Cedros do Atlas, a Canforeira, as Tílias, o Castanheiro-da-índia e o Sobreiro.



Anteriores ao projecto da Casa e do Jardim de Serralves, algumas destas árvores habitavam já o jardim existente na propriedade da família de Carlos Alberto Cabral, Conde de Vizela, tendo sido integradas no projecto de Jacques Gréber.















O Prado



Jardim das Aromáticas
Surgido na sequência do desaparecimento da Horta ajardinada original, localizada onde presentemente se encontra o Museu de Arte Contemporânea, o Jardim das Aromáticas desenvolve-se radialmente em canteiros a partir de um ponto central, preenchidos com cerca de 150 espécies de plantas aromáticas, medicinais e de uso culinário, privilegiando o uso de espécies da flora portuguesa, utilizadas tradicionalmente na culinária e na prática da medicina natural, permitindo, dessa forma, o reencontro dos visitantes com conhecimentos e costumes ancestrais.

As espécies dispõe-se de modo estratificado, com um aumento gradual dos seus tamanhos no sentido centro-periferia.

Na zona central deste jardim foi reinstalada uma das estufas pré-existentes na Horta original, bem como um pequeno pomar de citrinos, na sua envolvente, igualmente provenientes dessa mesma horta.


Muita coisa ficou por ilustrar, como este jardim das aromáticas que para já só aqui está com esta coloquei esta fotografia. Quem sabe numa próxima visita recolha mais fotografias para aqui depois mostrar. Como referi, para quem visita a cidade do Porto, uma passagem por Serralves é obrigatória.

Para saber mesmo tudo sobre a Fundação Serralves podem consultar o Site Oficial.

# A pega, a bosta e o anho

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